Nostalgia do Absoluto (Steiner)

Dezembro 26, 2011 ás 4:02 pm | Na categoria Cultura | Publicar um comentário

Em 1961, a CBC (Canadian Brodcasting Corporation) iniciou as sessões radiofónicas que ficaram conhecidas como as Conferências Massey (em homenagem ao antigo governador do Canadá Vincent Massey). Estas conferências, em plena celebração de 50 anos de existência, têm reunido importantes intelectuais, intérpretes sociais que apresentam o resultado das suas investigações.

Em 1974, Paul Buckley coordenou a  participação de George Steiner que daria origem à obra Nostalgia do Absoluto (em Portugal publicadas pela Relógio D’Água). Cinco conferências onde o crítico literário, ensaísta e filósofo britânico apresenta as “mitologias contemporâneas” que procuram preencher o vazio deixado pela religião na cultura Ocidental. Para Steiner, a nostalgia do absoluto é provocada pelo declínio da sociedade e do homem ocidentais, da certeza religiosa. Por isso, a época contemporânea anseia por uma explicação total, por uma profecia garantida.

Ao longo do século XX, esta profecia foi anunciada por cinco “mitologias” (apresentadas individualmente nas conferências Massey): o marxismo; a psicanálise de Freud; a antropologia de Lévy-Straus; a astrologia, o oculto e o orientalismo; e a ciência.

Enquanto Marx prometeu a libertação da dominação do homem pelo capital, Freud procurou banir as sombras do irracionalismo e da fé que inibiam as pulsões do inconsciente. Ambos prometeram a luz, a libertação do homem, mas a profecia falhou.

Lévy-Strauss, por sua vez, recuperou os mitos possuidores de um núcleo vital psicológico e histórico. Contudo, ao dividir o homem em Natureza e Cultura, provocou-lhe o mau estar da consciência dessa divisão, especialmente devido à valorização dos meios socioculturais em detrimento dos naturais.

Steiner identifica nestes três autores a presença do referente psicanalítico Prometeu. Para Marx símbolo da inteligência revolucionária, da rebelião do intelecto face à tirania arbitrária. Para Freud marca do eroticismo da cana com o fogo e da águia, assim como, da renovação diária da potência de Prometeu (é sabida a preferência de Freud pelo referente Édipo). Já Lévy-Strauss vê no gesto de Prometeu a vitória dos elementos sócioculturais sobre a natureza. Ao dominar o fogo, o homem domina os factores do seu contexto biológico e anuncia a premissa do seu progresso.

Apresentando de forma irónica e mordaz as marcas da astrologia, do oculto e do orientalismo, Steiner conclui que as mesmas são sintomas da crise de confiança dramática da sociedade ocidental. Só assim se explica a crescente irracionalidade, superstição e medo em torno de princípios “ocos”, de “escapismo infantil” que procuram preencher um vazio, “uma fome de transcendente” provocada pela ausência de uma teologia dominante.

Finalmente, a ciência forma superior que permitiria ao homem compreender e tratar o mundo natural de forma superior. A ciência é classificada por Steiner como uma mitologia que objectiva a verdade das lógicas dominantes, da burguesia ocidental. A ciência procura a verdade, “variável complexa dependente de objectivos sociais e políticos” (74).

Então, o que nos resta? Como curamos esta “nostalgia de absoluto“?

nós, os ocidentais, somos um animal feito para fazer perguntas e para tentar obter respostas sem olhar ao custo” (80)

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